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LEITE A2

Leite A2 × Leite A1: por que essa diferença importa?

Quando falamos em “tipo” de leite, não estamos discutindo integral, semi-desnatado ou desnatado, mas sim a variante genética da principal proteína do leite bovino: a beta‑caseína.

  • Leite A1 ― vacas de raças europeias (Holandesa, Frisian etc.) produzem beta‑caseína com o aminoácido histidina na posição 67.

  • Leite A2 ― vacas de raças mais antigas (Zebu, Guernsey, Jersey, Gir) mantêm a forma ancestral da proteína, com prolina na posição 67.

Como surge a tal da β‑casomorfina‑7 (BCM‑7)?

  1. Digestão: Durante a digestão da beta‑caseína A1, a enzima pepsina cliva a proteína exatamente no ponto da histidina 67.

  2. Liberação: Isso gera um peptídeo de 7 aminoácidos chamado β‑casomorfina‑7 (BCM‑7), classificado como exorfina (age como opioide).

  3. A2 não gera BCM‑7: A presença de prolina na forma A2 impede esse corte enzimático — o peptídeo não se forma (ou se forma em traços desprezíveis).

Potenciais efeitos da BCM‑7 no organismo

Evidência

Possível impacto

O que sabemos até agora

Estudos in vitro / animais

Ação opioide sobre receptores μ: pode lentificar motilidade intestinal, aumentar inflamação e alterar resposta imunológica

Resultados inconsistentes; doses maiores que o consumo humano típico

Ensaios clínicos pequenos (≤ 6 semanas)

A1 ↑ tempo de trânsito intestinal e sintomas de desconforto abdominal em adultos autodeclarados “sensíveis ao leite”; A2 aliviou

Amostras modestas, alto risco de viés, mas tendência favorável ao A2

Meta‑análises 2021‑2024

Diferença modesta em flatulência, inchaço e dor pós‑prandial; nenhum efeito robusto em marcadores cardiometabólicos

Qualidade geral das evidências: baixa a moderada

Resumo: Há indícios de que a BCM‑7 proveniente do A1 possa piorar sintomas gastrointestinais em algumas pessoas suscetíveis, mas não há consenso sobre efeitos sistêmicos (cardiovasculares, neurocomportamentais).

Mas onde entra a intolerância à lactose?

A intolerância clássica se deve à deficiência da enzima lactase, que impede a quebra do açúcar lactose, gerando fermentação e gases no cólon.Como a BCM‑7 se mistura nisso?

  1. Sintomas sobrepostos

    • Flatulência, dor abdominal e diarreia podem ser causados tanto pela má digestão da lactose quanto pelo efeito opioide da BCM‑7 na motilidade intestinal.

  2. Potencial “sinergia” negativa

    • Estudos sugerem que a BCM‑7 pode retardar o esvaziamento gástrico e o trânsito do intestino delgado, prolongando o contato da lactose não digerida com as bactérias colônicas → sintomas mais intensos.

  3. Percepção prática

    • Pessoas com hipolactasia leve podem tolerar leite A2, relatando menos desconforto do que com leite convencional A1, porque ao remover o fator adicional (BCM‑7) a carga sintomática cai abaixo do seu “limiar” particular.

O que dizem diretrizes e autoridades?

  • EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, 2009; revisão 2022): “Não há evidência suficiente para relacionar BCM‑7 a doenças em humanos.”

  • NHMRC (Austrália, 2023): reconhece “dados emergentes”, mas ainda não recomenda A2 em guias populacionais.

  • Ministério da Agricultura BR (IN 76/2018): regulamenta apenas teor de gordura/microbiologia; não diferencia A1/A2.

Conclusão regulatória: leite A2 não é considerado nutricionalmente superior, mas tampouco apresenta riscos — seu apelo é voltado a consumidores que relatam desconforto com leite comum.

Como encontrar (ou produzir) leite A2

  1. Rótulo “A2” ou “Livre de A1”: marcas certificadas realizam testes de DNA nas vacas.

  2. Raças zebuínas no Brasil (Gir, Guzerá) produzem majoritariamente A2; produtores artesanais destacam isso nos selos.

  3. Leite tipo A2 + semidesnatado ou zero lactose: opções comerciais combinam retirada da lactose com ausência de A1, dobrando a tolerabilidade.

Para quem vale a pena?

Perfil

Risco/Benefício do A2

Intolerante leve/moderado à lactose

Pode reduzir desconforto total; experimentar é seguro

Síndrome do intestino irritável (SII)

Evidência preliminar de menor distensão abdominal

Adulto saudável sem sintomas

Benefício mínimo; preço maior

Crianças com cólica associada ao leite

Dados ainda limitados; consultar pediatra

Dicas práticas para a saúde

  1. Proteína de qualidade: Leite (A1 ou A2) fornece ~8 g de proteína e cálcio essencial — útil para manutenção de massa magra.

  2. Controle calórico: Prefira versões semidesnatadas A2 se o objetivo for déficit calórico.

  3. Teste empírico: 7–14 dias substituindo leite convencional por A2; avalie sintomas e ajustes digestivos num diário alimentar.

  4. Outras fontes: Iogurte e kefir A2 mantêm o benefício e ainda trazem probióticos, ajudando na saúde intestinal.

Bottom line

  • BCM‑7 é gerada principalmente no leite A1 e pode amplificar sintomas gástricos, sobretudo quando existe lactose mal digerida.

  • Leite A2 evita essa exorfina, oferecendo melhor tolerância para alguns — mas não “cura” intolerância à lactose severa.

  • Para quem sente desconforto com leite comum mas não quer/precisa abandoná‑lo por completo, experimentar A2 é uma estratégia simples, segura e, hoje, cada vez mais acessível nas gôndolas brasileiras.


 
 
 

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