LEITE A2
- Rodolfo Scalo

- 23 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Leite A2 × Leite A1: por que essa diferença importa?
Quando falamos em “tipo” de leite, não estamos discutindo integral, semi-desnatado ou desnatado, mas sim a variante genética da principal proteína do leite bovino: a beta‑caseína.
Leite A1 ― vacas de raças europeias (Holandesa, Frisian etc.) produzem beta‑caseína com o aminoácido histidina na posição 67.
Leite A2 ― vacas de raças mais antigas (Zebu, Guernsey, Jersey, Gir) mantêm a forma ancestral da proteína, com prolina na posição 67.
Como surge a tal da β‑casomorfina‑7 (BCM‑7)?
Digestão: Durante a digestão da beta‑caseína A1, a enzima pepsina cliva a proteína exatamente no ponto da histidina 67.
Liberação: Isso gera um peptídeo de 7 aminoácidos chamado β‑casomorfina‑7 (BCM‑7), classificado como exorfina (age como opioide).
A2 não gera BCM‑7: A presença de prolina na forma A2 impede esse corte enzimático — o peptídeo não se forma (ou se forma em traços desprezíveis).
Potenciais efeitos da BCM‑7 no organismo
Evidência | Possível impacto | O que sabemos até agora |
Estudos in vitro / animais | Ação opioide sobre receptores μ: pode lentificar motilidade intestinal, aumentar inflamação e alterar resposta imunológica | Resultados inconsistentes; doses maiores que o consumo humano típico |
Ensaios clínicos pequenos (≤ 6 semanas) | A1 ↑ tempo de trânsito intestinal e sintomas de desconforto abdominal em adultos autodeclarados “sensíveis ao leite”; A2 aliviou | Amostras modestas, alto risco de viés, mas tendência favorável ao A2 |
Meta‑análises 2021‑2024 | Diferença modesta em flatulência, inchaço e dor pós‑prandial; nenhum efeito robusto em marcadores cardiometabólicos | Qualidade geral das evidências: baixa a moderada |
Resumo: Há indícios de que a BCM‑7 proveniente do A1 possa piorar sintomas gastrointestinais em algumas pessoas suscetíveis, mas não há consenso sobre efeitos sistêmicos (cardiovasculares, neurocomportamentais).
Mas onde entra a intolerância à lactose?
A intolerância clássica se deve à deficiência da enzima lactase, que impede a quebra do açúcar lactose, gerando fermentação e gases no cólon.Como a BCM‑7 se mistura nisso?
Sintomas sobrepostos
Flatulência, dor abdominal e diarreia podem ser causados tanto pela má digestão da lactose quanto pelo efeito opioide da BCM‑7 na motilidade intestinal.
Potencial “sinergia” negativa
Estudos sugerem que a BCM‑7 pode retardar o esvaziamento gástrico e o trânsito do intestino delgado, prolongando o contato da lactose não digerida com as bactérias colônicas → sintomas mais intensos.
Percepção prática
Pessoas com hipolactasia leve podem tolerar leite A2, relatando menos desconforto do que com leite convencional A1, porque ao remover o fator adicional (BCM‑7) a carga sintomática cai abaixo do seu “limiar” particular.
O que dizem diretrizes e autoridades?
EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, 2009; revisão 2022): “Não há evidência suficiente para relacionar BCM‑7 a doenças em humanos.”
NHMRC (Austrália, 2023): reconhece “dados emergentes”, mas ainda não recomenda A2 em guias populacionais.
Ministério da Agricultura BR (IN 76/2018): regulamenta apenas teor de gordura/microbiologia; não diferencia A1/A2.
Conclusão regulatória: leite A2 não é considerado nutricionalmente superior, mas tampouco apresenta riscos — seu apelo é voltado a consumidores que relatam desconforto com leite comum.
Como encontrar (ou produzir) leite A2
Rótulo “A2” ou “Livre de A1”: marcas certificadas realizam testes de DNA nas vacas.
Raças zebuínas no Brasil (Gir, Guzerá) produzem majoritariamente A2; produtores artesanais destacam isso nos selos.
Leite tipo A2 + semidesnatado ou zero lactose: opções comerciais combinam retirada da lactose com ausência de A1, dobrando a tolerabilidade.
Para quem vale a pena?
Perfil | Risco/Benefício do A2 |
Intolerante leve/moderado à lactose | Pode reduzir desconforto total; experimentar é seguro |
Síndrome do intestino irritável (SII) | Evidência preliminar de menor distensão abdominal |
Adulto saudável sem sintomas | Benefício mínimo; preço maior |
Crianças com cólica associada ao leite | Dados ainda limitados; consultar pediatra |
Dicas práticas para a saúde
Proteína de qualidade: Leite (A1 ou A2) fornece ~8 g de proteína e cálcio essencial — útil para manutenção de massa magra.
Controle calórico: Prefira versões semidesnatadas A2 se o objetivo for déficit calórico.
Teste empírico: 7–14 dias substituindo leite convencional por A2; avalie sintomas e ajustes digestivos num diário alimentar.
Outras fontes: Iogurte e kefir A2 mantêm o benefício e ainda trazem probióticos, ajudando na saúde intestinal.
Bottom line
BCM‑7 é gerada principalmente no leite A1 e pode amplificar sintomas gástricos, sobretudo quando existe lactose mal digerida.
Leite A2 evita essa exorfina, oferecendo melhor tolerância para alguns — mas não “cura” intolerância à lactose severa.
Para quem sente desconforto com leite comum mas não quer/precisa abandoná‑lo por completo, experimentar A2 é uma estratégia simples, segura e, hoje, cada vez mais acessível nas gôndolas brasileiras.
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