DOENÇA CELÍACA
- Rodolfo Scalo

- 23 de abr. de 2025
- 2 min de leitura

Doença celíaca — visão geral rápida
Doença celíaca (DC) é uma condição autoimune crônica em que a ingestão de glúten—conjunto de proteínas presentes no trigo, centeio, cevada e todos os seus híbridos—desencadeia inflamação e atrofia das vilosidades do intestino delgado. A prevalência global gira em torno de 1 % da população, mas permanece sub‑diagnosticada; no Brasil, estudos sorológicos indicam 0,7 – 1,2 %.
1. Como diagnosticar
Etapa | Exame | Detalhes práticos |
Triagem sorológica | IgA anti‑tTG (transglutaminase tecidual) + dosagem de IgA total | – Manter dieta com glúten por ≥ 4 semanas antes da coleta. – Se deficiência de IgA, pedir IgG anti‑tTG ou IgG DGP (deamidated gliadin peptide). |
Confirmação histológica | Endoscopia digestiva alta + 4‑6 biópsias de duodeno | Achado típico: atrofia vilositária grau Marsh 2‑3. |
Genotipagem | HLA‑DQ2 e/ou DQ8 | Ausência praticamente exclui DC (< 0,03 % sem esses alelos). Útil em casos duvidosos ou após dieta sem glúten. |
Protocolos pediátricos (ESPGHAN 2024) | Se anti‑tTG ≥ 10× LSN + EMA positivo, biópsia pode ser dispensada | Reduz procedimentos invasivos em crianças. |
Desafio de glúten (quando já está SG) | 3–10 g glúten/dia por 6–8 semanas → repetir sorologia e, se preciso, biópsia | Deve ser supervisionado; sintomas podem ser significativos. |
2. Efeitos do consumo de glúten em celíacos
2.1 Agudos (horas a dias)
Manifestação | Frequência (%) | Observações |
Diarreia, distensão, cólicas | 60 – 70 | Pode vir com esteatorreia. |
Náusea, vômitos | 30 – 40 | Mais comum em crianças. |
Exantema/urticária (dermatite herpetiforme) | 15 – 25 | Lesões pruriginosas cotovelo, joelho, nádegas. |
Fadiga, “brain fog” | 30 – 50 | Relato subjetivo frequente após “contaminação”. |
2.2 Crônicos (meses a anos se ingestão contínua)
Sistema | Consequências | Mecanismo |
Gastrointestinal | Má absorção crônica, perda ponderal, hipoproteinemia | Atrofia vilosa persistente. |
Ósseo | Osteopenia/osteoporose ↗ fratura (RR ~1,3) | Deficiência crônica de Ca²⁺, vitamina D e inflamação sistêmica. |
Hematológico | Anemia ferropriva ou megaloblástica | Má absorção de Fe, folato, B12. |
Endócrino | Hipotireoidismo autoimune, DM1 | Doenças associadas por predisposição HLA. |
Reprodutivo | Infertilidade, abortos de repetição | Desnutrição e inflamação endometrial. |
Neoplásico | Linfoma intestinal de células T (EATL) e adenocarcinoma jejunal | Risco elevado se exposição prolongada a glúten. |
3. Melhores substitutos alimentares sem glúten
Grãos e pseudocereais naturalmente SG (SEM GLÚTEN)
Alimento | Proteína (g/100 g cru) | Características culinárias |
Arroz integral | 7,5 | Base neutra; farinha p/ bolos. |
Milho (fubá, polenta) | 9,4 | Textura cremosa; bom para pães rápidos. |
Quinoa | 14,1 | Perfil de aa completo; boa para saladas e farinha 1:1. |
Amaranto | 13,6 | Gelatiniza; engrossa sopas. |
Trigo‑sarraceno (buckwheat) | 13,3 | Sabor terroso; crepes e macarrão soba SG. |
Sorgo | 11 | Farinha leve; mistura em panificação. |
Teff | 13,3 | Pães etíopes (injera); boa fermentação. |
Aveia sem contaminação* | 11,9 | Necessário selo “gluten‑free” (risco de contaminação cruzada industrial). |
*Aveia possui avenina, mas 95 % dos celíacos toleram; ainda requer certificação SG.
Outras fontes energéticas/práticas
Tubérculos: batata‑doce, mandioca (farinha de tapioca), inhame.
Leguminosas: grão‑de‑bico, lentilha, feijão – ótimas para farinhas.
Farinha de amêndoa, coco ou castanhas – agrega gordura boa e baixa carga glicêmica.
Dicas de formulação para panificação SG
Blend de farinhas: 40 % arroz + 30 % sorgo + 15 % farinha de grão‑de‑bico + 15 % amido de mandioca → equilíbrio entre estrutura e maciez.
Adição de hidrocoloides: psyllium (2 %) ou goma xantana (0,5 %) simulam rede de glúten.
Hidratação alta (80–100 %) + fermentação prolongada melhoram textura e sabor.
RESUMO: na doença celíaca, até traços de glúten mantêm inflamação intestinal e riscos sistêmicos; diagnóstico combina sorologia + biópsia, e o tratamento é dieta 100 % sem glúten, substituindo cereais tradicionais por grãos e farinhas naturalmente livres da proteína, garantindo variedade nutricional e prazer gastronômico.
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